À medida que entramos na próxima fase da descarbonização global, os investidores institucionais estão a repensar as suas estratégias. Em vez de evitarem setores com elevadas emissões como o cimento, o aço, as utilities e a gestão de resíduos, muitos estão agora a investir na sua transformação – promovendo objetivos climáticos e, ao mesmo tempo, gerando valor a longo prazo.
Estas indústrias são grandes contribuintes para as emissões globais, mas continuam a ser essenciais para as economias modernas. Desinvestir neles pode parecer uma abordagem simples para descarbonizar carteiras mais rapidamente, mas não reflete a realidade económica e apresenta o risco de marginalizar o progresso necessário para reduzir emissões na economia real. Cada vez mais os investidores estão a adotar uma abordagem diferente: apoiar os chamados improvers, empresas com planos credíveis e capacidade para concretizar uma descarbonização geradora de valor.
Esta estratégia já está a dar resultados. Por exemplo, a Estratégia Global Climate Transition Engagement da Nordea AM, que tem como alvo estas mesmas empresas, alcançou no ano passado poupanças de emissões na economia real de 24 toneladas de CO₂ por cada milhão de euros investidos; e, nos últimos 3 anos, conseguiu uma redução de 16% na intensidade de carbono. Posto isto, a questão que se coloca é: porquê investir em setores com elevadas emissões?
A indústria pesada e as utilities estão entre os maiores contribuintes para as emissões globais. O cimento, sozinho, é responsável por aproximadamente 7% das emissões de CO₂ a nível mundial. O aço, essencial para inúmeros fins, desde infraestruturas às energias renováveis, é outro setor com fortes emissões. As utilities, por sua vez, desempenham um papel fundamental na aceleração da transição energética, por exemplo substituindo combustíveis fósseis por energia renovável e modernizando as redes elétricas.
Desinvestir nestes setores significaria perder a oportunidade de influenciar estratégias de transição e abdicar de retornos atrativos. Pelo contrário, a propriedade ativa permite que os investidores envolvam as empresas num momento em que a política e a dinâmica de mercado estão a criar incentivos para a descarbonização. Por exemplo, a grande maioria das emissões de cimento provém da produção de clínquer, sendo que mais de metade resulta de processos químicos que não podem ser resolvidos apenas com a substituição energética – o que revela a necessidade de uma mudança sistémica.
Noutra ótica, a forma como uma empresa aborda a descarbonização pode afetar de forma significativa a sua valorização. O trabalho de avaliação da Nordea AM mostra que empresas em setores como o do cimento enfrentam uma quebra relevante de valor se não tomarem medidas para evitar o aumento dos custos com carbono, mas também evidencia um potencial de valorização significativo nos fluxos de caixa futuros com estratégias credíveis de descarbonização. O setor da gestão de resíduos é outro exemplo: investir em projetos que transformam aterros em gás renovável reduz as emissões e gera retorno adicional para os resultados. Nos EUA, as utilities estão também a transitar de combustíveis fósseis para renováveis, apoiando o crescimento dos lucros a longo prazo.
As estratégias baseadas no envolvimento estão a começar a gerar impacto mensurável, tanto em termos de reduções reais de emissões na economia como na geração de alpha, à medida que o mercado recompensa estes percursos credíveis de descarbonização. Evitar setores com elevadas emissões já não é visto como uma estratégia viável a longo prazo. Pelo contrário, observamos investidores a adotar uma abordagem mais ponderada e de longo prazo, reconhecendo que integrar a sustentabilidade significa posicionar-se para um crescimento duradouro e para vantagens competitivas mais robustas.