Por Eric Pedersen, Head of Responsible Investments da Nordea Asset Management
A transição energética tem demonstrado uma resiliência notável. Apesar das recentes reversões de políticas nos EUA e da hesitação regulatória na Europa, a energia eólica, solar e os sistemas de armazenamento em bateria (BESS) estão a tornar-se rapidamente as soluções mais competitivas e eficientes para aumentar a oferta de eletricidade.
O progresso tecnológico e a crescente adoção de soluções sustentáveis têm vindo a redefinir as expectativas dos investidores institucionais, que vão hoje muito além da mera classificação de produtos ou da análise de fluxos agregados de investimento, abrangendo temas como soluções baseadas na natureza, economia circular e práticas corporativas responsáveis. Para muitos investidores, tornou-se praticamente indispensável um programa estruturado de investment stewardship, assente num acompanhamento ativo e diálogo contínuo com as empresas investidas.
Atualmente, a procura por soluções sustentáveis tornou-se mais seletiva e exigente, obrigando os gestores de ativos a demonstrar de forma clara e fundamentada que as suas estratégias atendem às expectativas de investidores de longo prazo. Essa mudança de comportamento reflete-se nos resultados do mercado: o “S&P Global Clean Energy Transition Index” valorizou-se 44% em 2025, superando os 16% do “S&P 500 Index” e os 11% do “S&P Global Oil Index”, confirmando que estratégias climáticas bem estruturadas continuam a atrair capital.
Esta evolução não deve ser interpretada como um recuo nas ambições de sustentabilidade, mas sim como uma mudança do foco dos rótulos para o impacto real, a integridade reputacional e a gestão equilibrada entre risco e retorno financeiro.
Apesar da volatilidade regulatória no curto prazo, a descarbonização mantém-se uma tendência global de longo prazo, sustentada por fatores económicos cada vez mais favoráveis. Nem todas as tecnologias oferecem os mesmos resultados, e muitas empresas com estratégias credíveis de transição energética continuam subvalorizadas pelos mercados. O setor das utilities está no centro desta transformação. O aumento da procura de eletricidade é impulsionado pela eletrificação da economia e pelo crescimento de data centres, inteligência artificial (IA) e soluções em cloud, reforçando a necessidade de fontes de energia limpa.
O envolvimento ativo com empresas de setores de elevada intensidade de emissões é fundamental para promover a redução de impactos ambientais, incluindo as emissões de metano, que contribuem para cerca de 30% do aquecimento global atual. Desafios sistémicos como este devem ser tratados através de ação coordenada ao longo da cadeia de valor – um princípio conhecido como Systems Stewardship. Coligações de investidores e iniciativas de engagement colectivo continuam a ser instrumentos estratégicos para gerar mudanças reais. Desde 2022, diversos investidores têm colaborado em programas que visam cortes significativos nas emissões de metano em energia, utilitiese gestão de resíduos.
Para além do engajamento corporativo, o diálogo com reguladores é essencial para assegurar um quadro de investimento favorável. Um exemplo recente envolveu 44 investidores institucionais, representando mais de 4,5 biliões de euros em ativos sob gestão, que apelaram à Comissão Europeia (CE), ao Parlamento Europeu (PE) e aos Estados-Membros da União Europeia (UE) para implementar de forma célere a regulamentação de emissões de metano.
A curto prazo, a volatilidade regulatória pode gerar ruído e alimentar narrativas que colocam “sustentabilidade” e “competitividade” em campos opostos. No entanto, a experiência demonstra que não existe competitividade duradoura sem sustentabilidade. As empresas e investidores que antecipam tendências, mantêm uma visão estratégica de longo prazo e evitam distrações provocadas pelas “tendências do momento”, estarão melhor posicionados para alcançar sucesso no futuro.
Neste contexto, a transição energética representa uma oportunidade de investimento que combina sustentabilidade, inovação e potencial de retorno financeiro consistente. Os investidores que analisarem esta transformação com uma abordagem estratégica, diversificação e foco no longo prazo estarão a contribuir para um sistema mais sustentável e a beneficiar de oportunidades de criação de valor relevantes para os próximos anos.